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FAO vê riscos de tensões na cadeia global de alimentos

Categoria: Mercado Externo

Genebra, Suíça, 26/03/2020 |


Segundo a agência das Nações Unidas para agricultura e alimentação, perturbações podem aparecer na cadeia a partir de abril ou maio. E, por causa da recessão, a FAO também prevê menor consumo global de carnes.

Para a agência, impactos do coronavírus na produção de alimentos e na agricultura vão ocorrer na medida em que os casos da pandemia aumentam no mundo e o confinamento e outras restrições são adotadas para frear a propagação da doença.

No momento, o órgão avalia que as interrupções são mínimas, porque os abastecimentos de alimentos têm sido adequados e os mercados continuaram relativamente estáveis. Os estoques mundiais de grãos são ainda elevados e as previsões sobre a colheita das principais culturas são positivas para este ano.

De acordo com a FAO, é provável uma menor produção de alimentos básicos de valor mais elevado, como frutas e legumes, mas ainda não há turbulências nesse segmento. No entanto, a agência vê desde já desafios crescentes na circulação de produtos alimentícios.

Em entrevista ao Valor, o economista-chefe da FAO, Maximo ToreroCullen disse que o problema fundamental será na área logística, mas que a situação é diferente nos distintos mercados de commodities.

“Para os cereais, intensivos em capital, as reservas são suficientes e as colheitas atuais são muito boas”, afirmou. Ele considera que não há problemas de disponibilidade de alimentos, mas disse que dificuldades logísticas vão ocorrer se cadeias de distribuição de fato forem prejudicadas pelo lockdown. “Se os países ficarem nervosos, isso poderá levar os exportadores a impor restrições aos embarques, e é algo que deve ser evitado.

No lado de commodities de alto valor, produtos perecíveis, demandam muito trabalho e, portanto, parte da produção pode ser afetada pela redução na oferta de mão-de-obra devido a aspectos de doenças ou pelo lockdown que está afetando o fluxo de trabalhadores temporários (migrantes).

Nesse caso, também os problemas na cadeia logística são muito mais preocupantes por serem produtos perecíveis”, disse ele. Por isso, afirmou, a FAO reitera que é importante que os países tentem evitar esses problemas e permitam que “a cadeia alimentar possa ser mantida viva e eficiente”.

Para ToreroCullen, as tensões tendem a crescer a partir de abril porque os efeitos do confinamento e a redução da oferta de mão-de-obra serão claros nos próximos meses no setor agrícola. Nesse contexto, ele prevê que colheitas de muitos produtos de países exportadores poderão ser afetadas.

Sobre o impacto da crise do covid-19 para países exportadores como o Brasil, Maximo ToreroCullen apontou que os efeitos negativos na oferta acontecerão principalmente por problemas logísticos e trabalhistas, devido a doenças ou incapacidade de movimentação para o trabalho. O economista-chefe da FAO lembrou que, no Brasil, já há problemas de logística - em Mato Grosso por exemplo.

Ele mencionou o caso do município de Canarana, onde o prefeito emitiu decreto restritivo para frear a propagação do coronavirus e a medida poderia interromper a logística de exportação de grãos e as operações das principais trading agrícolas naquela região.

Quanto à demanda, ToreroCullen disse que a crise atual vai gerar uma recessão, “e isso vai se refletir na demanda, podendo afetar os preços, levando-os à baixas no futuro próximo”. Ele observou, também, que a estrutura de custos do setor agrícola brasileiro vai ser afetada pela desvalorização do real em relação ao dólar.

Sobre a expectativa de queda na produção e no consumo agrícola, já que as pessoas estão comprando menos e muitos não estão produzindo, o economista-chefe da FAO disse: “Se a cadeia de valor não estiver protegida, é possível que ocorram problemas de preço e escassez de alimentos, especialmente de produtos de alto valor (frutas e vegetais), porque são mais trabalhosos e serão mais afetados por problemas logísticos

Para ToreroCullen, é muito cedo para se prever recuo na produção de grãos. No entanto, a redução do crescimento econômico mundial como resultado do coronavírus afetará negativamente a demanda e, portanto, os preços. A FAO considera possível uma queda maior, desproporcional, do consumo de carne. Do lado da oferta, avalia a agência, problemas logísticos já estão afetando o segmento, e é preciso que sejam adotadas medidas de saúde necessárias para os empregados de frigoríficos.

Há, também, o problema de informação. “Tem havido muita especulação de que o coronavírus tenha se originado de animais para humanos. Isso não tem evidência científica, mas a especulação levou consumidores a temerem comer carnes”. E, em terceiro lugar, a recessão vai reduzir a demanda, o que afetará os preços.



Fonte: Valor Econômico
Autor: Assis Moreira



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