domingo, 29 de maio de 2022

BRF cria joint venture com fundo soberano do governo da Arábia Saudita e domina mercado de frango no país

Maior produtora de carne de frango do mundo cria joint venture com fundo soberano da Arábia Saudita para implementar operação completa de produção no mercado muçulmano

A Arábia Saudita pretende se tornar uma referência global de excelência em várias frentes. Para isso, criou o projeto Visão 2030. O ambicioso plano de desenvolvimento contém tanto metas abrangentes ­— uma delas é saltar da 19ª para 15ª posição entre as maiores economias do mundo — quanto pontuais, como fortalecer a segurança alimentar. Nesse quesito, reduzir a dependência de importações de carne de frango é estratégico. E essa é uma das razões para a formação da joint venture entre o Public Investment Fund (PIF), o fundo soberano do país, que é um dos maiores do mundo, e a brasileira BRF, líder na produção global de carne de frango.

Atualmente, a BRF mantém uma fábrica na Arábia Saudita, dedicada ao processamento de matéria-prima fornecida por suas unidades brasileiras. Com a joint venture, ela assumirá o pacote completo da produção de frangos no país, da criação das aves à venda de produtos frescos, congelados e processados. Terá 70% de participação na nova empresa, criada com investimento inicial de US$ 350 milhões. Por meio da Sadia, a BRF já responde por 36,3% do mercado total de carne de frango no Oriente Médio, segundo informações da agência de notícias Bloomberg. Em período de silêncio exigido por órgãos reguladores, a BRF não concedeu entrevista.

Levando-se em conta as ambições da Arábia Saudita em relação ao mercado de carne de frango, o horizonte da BRF é bem amplo. Conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo interno do país em 2021 passou de 1,5 milhão de toneladas, enquanto a produção local foi de 920 mil toneladas. Para a conta fechar é preciso importar boa parte da demanda. É aí que faz diferença o Visão 2030: a meta é reduzir para 20% o volume de importação, elevando a produção interna para 1,2 milhão de toneladas.

Essas mudanças ajudam a explicar a queda de 20% na compra de carne de frango brasileira pelos sauditas. Em 2020, importaram mais de 418,7 mil toneladas, mas no ano passado esse volume foi de 333,6 mil toneladas. Para o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, a redução é consequência de uma decisão soberana do país. “Mas nada impede que o mercado árabe como um todo continue sendo um grande importador”, afirmou. Tanto que, de 2020 para 2021, os Emirados Árabes trocaram de posição com a Arábia Saudita no ranking de maiores importadores de carne de frango do Brasil, assumindo a terceira colocação.

MERCADO HALAL – De acordo com o presidente da ABPA, o campo de oportunidades para a indústria brasileira de carne de frango junto à comunidade internacional islâmica é promissor. O Brasil já é o maior fornecedor global de proteína halal, que exige cuidados especiais desde a criação até o abate. “No total, as exportações de carne halal passam de 1 milhão de toneladas”, disse Santin. Segundo ele, essa demanda é significativa mesmo em localidades onde o islamismo não é a religião dominante.

Se depender da entidade, a operação do Brasil no mercado halal seguirá avançando. Entre os dias 13 e 17 de fevereiro, representantes da ABPA estarão em Dubai, na Gulfood, uma das principais feiras internacionais do setor de alimentos, para reforçar a relação comercial que já é uma tradição. “Nos últimos 20 anos, as exportações para a comunidade islâmica passaram de 24,5 milhões de toneladas, quase 1 milhão de contêineres”, afirmou Santin.

Mudanças na indústria de proteína animal

A BRF planeja chegar ao final desta década com receita líquida de R$ 100 bilhões. Para isso, terá de reduzir sua dívida líquida, que em setembro de 2021 passava de R$ 16 bilhões. Os acionistas da empresa liberaram uma oferta pública de 325 milhões de ações e ADRs (recibos de ações negociadas nos Estados Unidos), o que pode gerar receita próxima de R$ 8 bilhões, dependendo do valor em bolsa. E também pode abrir caminho para que a Marfrig, que já tem 31,66% da BRF, assuma o controle da empresa.

Enquanto isso, a JBS, maior empresa do setor, se movimenta. Ela acaba de anunciar seu novo presidente no Brasil: Gilberto Meirelles Xandó Baptista, ex-CEO da Vigor Alimentos. Sua cadeira no Conselho de Administração será ocupada por Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, como membro independente. Ex-diretor de Política Econômica do Banco Central, Araújo faz parte dos conselhos da Brasilprev e da FGV.

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